Durante muito tempo os negros foram considerados pouco mais que animais, muitas eram as idéias científicas que apregoavam ser o homem negro inferior ao branco, justificando-se por meio de embasamento teóricos racistas, como o darwinismo elitista que influenciou o pensamento da humanidade nos séculos XVI, XVII e XVII.
Nesse contexto tudo o que era produzido pelos negros era marginalizado pela elite brasileira, e conseqüentemente pela elite baiana. Apesar da cultura do dominado não ter nenhum reconhecimento socialmente, é percebido a sua permanência no cenário literário, reivindicando sua inserção de forma mais igualitária na sociedade, prova disto é fácil identificar vários escritores de renome nacional que estamparam em seus romances a tentativa de afirmação da identidade do povo reprimido.
A representação destas lutas, encontramos com bastante propriedade nas obras amadianas, as quais remetem a uma painelização das múltiplas facetadas formas de resistência da cultura negra.
Nas obras amadianas, especialmente Pastores da Noite e Jubiaba, Jorge Amado representa de forma irreprochável, os modos como o proletariado manifestava sua cultura e que hoje são lidas como forma de resistência.
O negro sempre foi visto como o preguiçoso, o feio, o malandro, o mentiroso etc, mas se continuarmos com esta visão estereotipada, não será possível fazer uma outra leitura a partir das obras de Jorge Amado. A partir da situação social do negro e de sua luta por liberdade faremos um redimensionamento desta compreensão.
Como era de costume dos negros na época da escravidão mentir para trapacear seus senhores, vingar-lhes por seus sofrimentos, o negro Balduino, em Jubiabá, se vê obrigado a mentir descaradamente para disfarçar afetos e mascarar ações. O narrador onisciente em Jubiabá, afirma que, com as surras, o negrinho se via obrigado a mentir para livra-se de outras.
A mentira era uma excelente forma de enganar os senhores chegando a prejudicá-los. Em Jubiabá, a mentira também aparece como finalidade, a tentativa de preservar uma de hierarquia. A personagem Amélia, se vendo como superior, cumpre na história a velha função de mexeriqueira e má, buscando de qualquer maneira desmoralizar o protagonista Balduino.
Muitos negros apoderaram-se de práticas mentirosas como maneira de conseguir alguns méritos ou benefícios, principalmente benefícios materiais. Isso é visível em Jubiabá quando o negro Balduíno e seus colegas fingem-se de mendigos cegos para conseguirem dinheiro fácil para suprirem suas necessidades ou muitas vezes para alimentar seus vícios.
Uma outra forma de insubordinar-se contra as determinações das classes dominantes é a prática de roubos e assaltos, atitudes essa retratada por Amado ao esclarecer que as profissões escolhidas pelas crianças do morro eram justamente as de malandragem, desordeiros e ladrões de atentar para a escravidão das fábricas, dos campos e dos ofícios proletários.
Evidencia-se na narrativa amadiana a influência das relações de produção social, estando perceptivelmente destacada à questão da estratificação social a que estão submetidos os negros, pelo fato de perdurar para estes o estigma de “subordinados”, sendo de certa forma, destinados a conviver com a idéia de que serão dependentes daqueles que detém um maior poder sobre os mesmos. Como bem afirma Eduardo de Assis Duarte: “Fica patente a rigidez de uma estratificação social que nega aos oprimidos acesso a atividades que lhes possibilitem alcançar um outro nível de vida”. (DUARTE, 1996, p. 98).
Obviamente, pelo fato de reconhecerem a dominação dos brancos e ricos, os negros passavam a sustentar um ideal de liberdade, para assim não manterem-se na condição de explorados, desta maneira acatavam a marginalidade como sendo sua única opção de status quo. Pois já lhes fora impregnado a idéia de segregação que coloca pobre-negros e branco-ricos em patamares totalmente paradoxos.
Mostrando-se embravecidos com sua posição social os negros, que comporia a classe dominada (composta por sua maioria de negros e mestiços), utilizavam da recusa ao trabalho – que lhes remetiam às suas piores recordações – para buscar a afirmação da liberdade.
A aversão de Balduíno ao trabalho lhe garante a liberdade e o livra da opressão dos patrões, fato também que Jubiabá o admira. Esta situação é percebida nos seguintes trechos:
Também Jubiabá gostava de Antonio Balduíno. Falava com ele como se ele fosse um homem. E o pretinho ia tomando amizade ao macumbeiro.
Respeitava-o porque ele sabia tudo e solucionava todas as questões entre os homens do morro. E curava todas as doenças e fazia feitiços fortes e era livre, não tinha patrão nem horário de trabalho.
(p. 34).
De que valia trabalhar? Viver debaixo dos fardos, carregando os navios? Depois morria e deixava os filhos sem ter de que viver. O velho salustiano pegara e se jogara na água E foi de tanto pensar nessas coisas que Viriato, o anão, se matara numa noite de temporal. Antonio Balduíno não gostava de pensar nessas coisas.
(AMADO, Trecho de Jubiabá, p. 246)
O aborrecimento de Balduíno quanto ao trabalho durou até o momento em que se viu obrigado a velar pelo filho de Lindinalva depois da promessa no seu leito de morte, mulher que ele realmente amou.
A aquiescência à greve por Balduíno é definitivo na sua formação de líder e revolucionário:
Antonio Balduíno já estava cansado de ouvir tanto discurso. Mas gostava. Aquilo era uma coisa nova para ele, uma das coisas que amaria fazer. Fazer uma greve... Nunca tinha pensado nisso. Mas era bom. Ele tinha a impressão de que naquele momento eram donos da cidade. Donos da verdade. Eles não queriam, não havia luz, nem bondes, nem telefone para os namorados, o noivo sueco não descarregaria os trilhos para a estrada de ferro nem carregaria os sacosde cacau que enchiam o armazém 3. os guindastes estavam parados, vencidos pelos inimigos que eles sempre mataram. E os donos daquilo tudo, os homens que mandavam neles, se escondiam medrosos, sem coragem de aparecer. Antonio Balduíno sempre tivera um grande desprezo pelos que trabalhavam. E preferiria entrar pelo caminho do mar, se suicidar numa noite no cais, do que trabalhar, se Lindinalva não lhe houvesse pedido que tomasse conta do filho.
(AMADO, Trecho de Jubiabá. p. 168)
A prática de roubos e fuga dos negros a qualquer custo, enfrentando a polícia, revela a revolta diante de sua situação social e econômica.
Pra sair da situação de oprimido, o negro chegou a cometer assassinato:
A valsa triste canta perto.
— Mas de noite um irmão do negro matou o senhor Leal. O irmão do negro que eu conheci. Foi ele quem me contou a historia.
(AMADO, Trecho de Jubiabá. p. 128)
O rapaz negro desapareceu e meses depois foi condenado a trinta anos porque matou o alemão que deixou Mariinha com um filho e sem emprego.
(...)
O Gordo reza em voz baixa. Pede a Deus que não deixe o alemão levar mariinha e que não faça faltar comida na mesa do canoeiro Antonio Balduíno sabe que o Gordo está rezando e que é inútil. Diz:
— Pode ser heresia, minha gente... Mas a vontade que esse nego que está aqui tem é matar os brancos todos... Matava e não tinha pena...
(AMADO, Trecho de Jubiabá. p. 147)
e até mesmo a se suicidar. Esta foi à saída encontrada por Viriato Anão e o Velho Salustião:
Certa noite, no cais, os homens pararam de repente o trabalho e correram para a borda onde o mar batia. Havia uma clara e estrelas tão brilhantes que nem se via a luz da lâmpada de um botequim que se chamava Lanterna dos Afogados. Os homens encontraram um paletó velho e um chapéu furado. Alguns negros caíram n’água. Voltaram com um corpo. Fora um preto velho, um daqueles raros pretos de carapinha branca, que se jogara ao ma. Antonio Balduíno ficou pensando que ele entrara pelo caminho de casa, que ele também vinha ao cais todas as noites. Porém um estivador explicou:
— É o velho Salustiano, coitado... Tava sem trabalho desde que saiu das docas...
Olhou pros lados, cuspiu com raiva:
— Disseram que ele já não dava conta do serviço... Já não tinha força... Andava agora passando fome, cortando uma dureta. Coitado...
Outro ajuntou:
— É sempre assim... Matam a gente de trabalho e depois mandam embora. Quando a gente não pode fazer outra coisa senão se jogar no mar.
(AMADO, Trecho de Jubiabá. p. 69)
Foi numa noite assim de temporal que Viriato o anão entrou pelo mar adentro. Os siris habitaram seu corpo e chocalhavam. Também o velho Salustiano foi procurar o caminho de casa. E uma mulher que se jogara n’agua com uma pedra no pescoço? O saveiro balançava nas águas. Na vinda Antonio Balduíno pensara em jogar o bote em cima das coroas de pedra. Hoje ninguém vê as coroas. As águas taparam tudo e mestre Manuel não sederia o leme a ninguém. (232)
Sob essa ótica pode-se afirmar que os negros não foram pessoas mudas e passivas na história. No entanto, comportaram-se como agentes transformadores, sujeitos ativos e construtores de sua própria liberdade.
REFERÊNCIAS:
AMADO, Jorge. Jubiabá. Rio de Janeiro: Editora Record, 2006.
______, Jorge. Pastores da Noite. São Paulo: Martins Editora.
DUARTE, Eduardo de Assis. O romance de formação proletário, IN: Jorge Amado: romance em tempo de utopia. Rio de Janeiro: Record; Natal: RN - UFRN, 1996, p. 75-113.
RODRIGUES, N. Os africanos no Brasil. 2. ed.São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1935.